ANSA

Promovendo a justiça e a solidaridade no Araguaia

Ameaças de morte e uma cidade ganhada na enxada

terça-feira, Junho 18, 2019

O Pedro sempre sentiu intensamente a pequena cidade de Serra Nova.

O conflito de mais de 40 anos com a Fazenda Bordom esteve sempre presente. Sempre na lembrança. Inclusive depois que o Pedro não pode ir mais visitar a comunidade de lá, o seu pensamento sempre está com as famílias da Bordom.

Depois de terem tentado assassinar ele e da violência que os latifundiários da Bordom impuseram ao povo do Araguaia, a sua desapropriação total em 2009 se traduziu em uma alegria imensa para o Pedro.

Celebramos o momento na casa dele, com um almoço simples, mas muito emocionante, em lembrança de tanto sofirmento e cheio de esperança. O Pedro sorria, alegre, mas também calava; como quem sente profundamente a dor passada pelo povo.

Terra para poucos, com os recursos de tod@s

A partir do golpe militar de 1964, é dada nova orientação com relação à ocupação das terras na Amazônia: “O Governo Federal, através de incentivos fiscais e crédito facilitado, privilegia a instalação de amplos latifúndios cujos proprietários são, na maioria das vezes, empresários do Centro-Sul.”1 A enorme área de Amazônia começa a ser distribuída entre os amigos dos militares.

Para garantir e proporcionar a infraestrutura básica que as atividades dos latifundiários necessitavam, o poder público criou órgãos específicos para apoiar tais atividades: o Banco da Amazônia S/A (BASA), a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO), e a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM)2.
O eixo desta nova política de ocupação da Amazônia girou entorno, portanto, àconcessão de generosos incentivos fiscais e de crédito barato para as empresas interessadas em investir na Amazônia. Par isso, apolítica de incentivos fiscais é uma das causas fundamentais da expansão das grandes empresas agropecuárias à custa e em detrimento da agricultura familiar3.

Segundo denunciava a Comissão Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1980, até julho de 1977, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia havia aprovado 336 projetos agropecuários, nos quais seriam investidos 7 bilhões de cruzeiros. Dessa importância, apenas 2 bilhões correspondiam a recursos próprios das empresas, enquanto os restantes 5 bilhões, mais de 70% do total, eram provenientes dos chamados incentivos fiscais4.

Desta forma, o governo privilegiou a instalação de amplos latifúndios cujos proprietários eram, na maioria das vezes, empresários do Centro-Sul, convertendo o Mato Grosso no Estado que apresentou a maior concentração de projetos de colonização privada do Brasil5.

Assim por exemplo, na região da Prelazia de São Félix do Araguaia, o nome do município de Confresa é referência à Colonizadora Frenova Sapeva, empresa proprietária das Fazendas Reunidas Nova Amazônia, que abrangiam inúmeras propriedades agropecuárias, além de uma destilaria; e a cidade de Vila Rica que deve seu nome à empresa Colonizadora Vila Rica que, em 1978, se instalou na região para atrair migrantes, principalmente do Sul do Brasil.

O resultado dessa política foi a intensa especulação de terras, desencadeada com força na década de 1960, e o incentivo ao desenvolvimento agrícola e pecuário, sem qualquer tipo de cuidado ambiental, o que gerou um quadro de expressiva degradação ambiental. 

Ao mesmo tempo, a ausência de direitos trabalhistas, previdenciários, etc condenavam muitos dos trabalhadores dessas fazendas a viver na ilegalidade e na precariedade mais absoluta: no Mato Grosso, ainda hoje, ter carteira assinada e um salário digno é luxo!

Nessa situação de apropriação de terras, de militares no governo (e não era 2019...),de desrepeito à diversidade indígena e de atropelamento dos direitos mais essenciais dos trabalhadores, os latifundiarios impunham a sua lei: a lei do 38. São muitos os casos de assassinatos, mortes encobertas, violência, exploração sexual, etc. que a região sofre na época.

Porém, também são muitos os casos de resistência, luta e dignidade que o Povo do Araguaia conquistou. Talvez o mais emblemático seja o da cidade de Santa Terezinha, do qual falaremos em outro momento, mas agora queremos contar brevemente a história da cidade com menos habitantes do Araguaia: Serra Nova.

Tentativa de assassinato ao Bispo Pedro Casaldáliga

”A Empresa Bordon ameaçou matar-me e a Moura, e incendiar a cidade. Fomos esperados de emboscada, na mata, pelo capataz da plantação, Benedito Boca-Quente. A “boca quente” era a do seu revólver. Eles colocaram um preço na minha vida: mil cruzeiros, um revólver 38 e um bilhete de saída à vontade”. Pedro Casaldáliga

Em 1972, a fazenda Bordón cercou a cidade de Serra Nova e começou a expulsar os posseiros e queimar seus quartéis, usando pistoleiros que intimidavam a cidade. Pedro foi para a Serra Nova para dar apoio aos agricultores. Enquanto estava lá, decidiu ir ao quartel-general da fazenda conversar com o gerente.

Benedito Boca Quente, funcionário da fazenda e com a reputação de homem valente, sabendo que o bispo iria para a sede, contratou um pistoleiro para matá-lo. Ele deu-lhe um revólver e dinheiro para a fuga. Pedro foi com Lulu, líder dos posseiros que depois seria preso pelos militares. O pistoleiro se escondera na floresta e espreitava seus passos. Passaram perto dele, mas o pistoleiro não disparou. O gerente da fazenda parecia pálido quando Pedro chegou.

O atirador, antes de fugir, foi e contou à equipe pastoral o que havia acontecido com ele. Quando ele estava escondido, ele começou a lembrar que, quando criança, sua mãe lhe disse que quem matou um padre estava indo para o inferno. Ele, sabendo que ia matar um bispo, ficou com medo e desistiu do esforço. Estas são as suas palavras:

Eu, Vicente Paulo de Oliveira, peão da empresa Bordón, S.A.,
onde estou trabalhando desde junho, declaro o seguinte,
“Benedito Boca Quente, em 1º de outubro, pediu que eu matasse o padre Pedro e,
para matá-lo, ele me daria mil cruzeiros, um revólver 38 e uma passagem para onde quisesse.
E novamente, em 5 de outubro, ele insistentemente me pediu para matar o padre Pedro;
e se eu o descobrisse, ele me mataria.

E, para ser verdade, eu assino
São Félix, 30-X-71
Assinado com o dedo por Vicente Paulo de Oliveira
Testemunha: Benedito da Silva

A esperança vence o medo

Em 1973, a Equipe Pastoral da Prelazia escrevia: ”Serra Nova está situada nas costaneiras da Serra do Roncador, a aproximadamente 150 Km de São Félix. (…) De dezembro a abril só se chega a Serra Nova de téco-téco ou a cavalo. Sua população atual é de 180-200 famílias, num total aproximado de 1.400 pessoas. Todos camponeses, vivendo da terra da qual retiram o arroz de cada dia. Como em toda a região, não há luz elétrica e nem água encanada. O maior problema de Serra Nova atualmente é a falta de terra de lavoura disponíveis para toda a população”.

A Empresa Bordom efetivamente, reivindicava as terras onde moravam as famílias de Serra Nova como próprias e o conflitou começou. Para os moradores do local, perder as terras era perder a vida.

Como explica Liebe Lima, da Articulação Araguaia Xingu em que a ANSA participa, “em maio de 1973 era tempo de preparar o solo para esperar a chegada das chuvas em setembro e lançar as sementes na terra. Veio a necessidade de combater a fome e a comunidade tomou a decisão de enfrentar as cercas da fazenda BORDON correndo o risco de serem presos e expulsos, pois a lei não estava com eles. Fizeram um abaixo assinado e enviaram para o INCRA informando sua decisão e denunciando as ameaças que sofriam. Não houve o que lhes fizessem arredar o pé dali, nem mesmo a prisão de um camponês sob a lei de segurança nacional por 30 dias em Barra do Garças. A correlação de forças era muito desigual, mas a determinação de permanecer na terra foi maior que o medo de ficar e enfrentar.

A luta, porém, teve seu fruto e, como podemo ler AQUI , em 2009: “A Procuradoria Federal Especializada (PFE) junto ao Incra garantiu a declaração de improdutividade da fazenda Bordolândia, no Mato Grosso. O imóvel, de mais de 50 mil hectares, fica nos municípios de Bom Jesus do Araguaia e Serra Nova Dourada, nordeste do estado. Agora, não há mais empecilhos jurídicos que ameacem o desfecho da desapropriação da área, que vai assentar cerca de 700 famílias de trabalhadores rurais”.

FONTES:
1. DA CUNHA GALVÃO, Josiani Aparecida. Notas sobre a colonização em Mato Grosso de 1940 a 1980. Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Campus de Barra do Bugres, Mato Grosso, Brasil. Disponível  [AQUI]
2. DA CUNHA GALVÃO, Josiani Aparecida. Colonização e cidades em Mato Grosso. XXVII Simpósio Nacional de História. Natal, RN: 2013. Disponível:  [AQUI]
3. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Igreja e Problemas de Terra. Documento aprovado pela 18ª Assembléia da CNBB. Itaici, 14 de fevereiro de 1980. Pode ser consultado [AQUI] 
4. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Igreja e Problemas de Terra. Documento aprovado pela 18ª Assembléia da CNBB. Itaici, 14 de fevereiro de 1980. Pode ser consultado  [AQUI]
5. DA CUNHA GALVÃO, JosianiAparecida. Notas sobre a colonização em Mato Grosso de 1940 a 1980. Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Campus de Barra do Bugres, Mato Grosso, Brasil.
6. FORCANO, Bejamín. Pedro Casaldáliga, Profeta. Revista América Latina en Movimiento. 2010. Disponível  [AQUI.] 

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